Fognini em busca de paz e a caminho da redenção

Tem sete meses que eu não escrevo no blog e na semana passada, durante o Brasil Open, senti falta deste espacinho para  poder escrever tudo o que não pude transformar em reportagem ou artigo.

Apontei aqui alguns inúmeros pontos para escrever conforme fosse tendo tempo e também registrei meus causos. Um dos temas que mais pensei em escrever era sobre o italiano Fábio Fognini por alguns motivos, então farei hoje na, quem sabe, reabertura do meu Lar, que é o lar de todos.

Algumas coisas me motivaram a escrever sobre o Fábio…

  1. Eu acho esse rapaz de um talento tão absurdo que eu não consigo torcer contra;
  2. Fognini é verdadeiramente uma pessoa querida no Brasil e que desperta curiosidade
  3. Ele é protagonista de um dos posts mais lidos e buscados da história deste humilde “brog*’ : “Uma Punição para Fábio Fognini

Posto isso, vamos direto ao ponto.

mestre Hoje, o Fognini vai disputar sua primeira final ATP no ano, a primeira em nove meses (ATP Munique, Alemanha, em 2014 quando perdeu do eslovaco Martin Klizan) e no Rio de Janeiro buscará seu quarto título na carreira, o segundo em um ATP 500. Em detrimento de tudo que o italiano de Sanremo possa conquistar ao bater David Ferrer hoje a noite no Rio, queria destacar a mudança de Fábio.

Fognini de certo me chamou muito atenção e assustou, de verdade, durante a disputa do último Masters 1000 de Madri (Espanha). Lá, além de ameaçar um árbitro de cadeira, como descrito no post já citado, vi o ligúrio atirar uma bolinha no público, porque se sentia incomodado com um grupo de jovens na partida de segunda rodada contra o brasileiro Thomaz Bellucci.

Dada essa situação e o incidente com o marroquino Mohamed Lahayni, eu decidir tentar entender tanta ‘rebeldia’ por parte do italiano e a única coisa que eu recebia eram negações.

Jogadores, treinadores e até boleirinhos me diziam: “Que isso?Estás louca? Fognini é uma das pessoas mais amadas do circuito” e a rasgação de seda para o italiano ia de gente claramente próximas a ele e outras nem tanto. Fui ouvindo as pessoas, tomando nota e observando Fábio a cada semana depois do ocorrido em Madri. A postura foi ficando menos agressiva, até a quantidade de palavrões ele estava diminuindo, mas o ar esquentado, irritadiço (já abordado no post citado) seguia ali, firme e forte.

Fabio Fognini - ATP Buenos Aires 2013

Fabio Fognini – ATP Buenos Aires 2013

Da ATP a única resposta que tinha, eram alguns statments (resumos de documentos oficiais) que me eram passados pela equipe de comunicação com dizeres de que “o atleta foi ouvido, suas intenções observadas e as medidas administrativas cabíveis (multas) foram tomadas” ou negação de punição. Tudo nesse sistema, não necessariamente nesta ordem, sem valores oficiais, mas nada que fosse inferior a US$ 5 mil, o que é de conhecimento meu. Apenas em Wimbledon foram US$ 27 mil em multas.

Quando veio novembro, ocorreu o Challenger Finals em São Paulo, onde um dos melhores amigos do Fognini, talvez seu melhor amigo, Simone Bolelli, jogou. Simone é sempre um bom papo, então decidi entrevistá-lo inclusive por motivos de acusação de vendas de resultados e também retorno de cirurgia. Tomei um chá de cadeira de mais de 40 minutos. Mas quem nunca? (hastag #vidaderepórter) Esperei tanto que o treinador do Bolelli, Giancarlo Petrazzuolo, ficou incomodado e deu um jeito do pupilo me atender. No meio da conversa veio aquela voz do além sussurrar no meu ouvido: “Pergunta do Fognini. Pergunta do Fognini”.

fogna1A voz insistiu tanto que perguntei e para minha surpresa o Bolelli começou a fala assim: “Acho que não sou a pessoa mais indicada pra te falar dele. Você pode achar Fognini brigão, encrenqueiro, mal educado e ele é meu amigo. Conheço o coração do Fábio e pouca gente tem o coração tão bom”.

Na hora, me lembrei que várias pessoas já tinha me falado de como o “coração de Fognini era bom”, confesso que fiquei pensativa olhando pro Bolelli, que como bom italiano seguia falando…

Lembrei do quanto Fognini foi desagradável (para ser educada) no discorrer do Brasil Open de 2013, mas o quanto havia sido bacana em Buenos Aires, Valência, Barcelona e afins. Arrancar uma boa entrevista dele era um problema, talvez culpa desta repórter, mas era um problema. Veio-me o ano de 2014 e toda a falta de educação dele, de expulsar jornalista de coletiva em Roma, fazer o que fez em Madri. Segui pensativa, mas entendi Simone Bolelli.

Daí veio 2015, Fognini e Bolelli entraram pra história do seu país ao conquistar o primeiro Grand Slam da era moderna em duplas do país, mas em simples Fognini seguia patinando e perdendo.

Curiosamente optou por jogar em São Paulo, lugar em que ele disse aos quatro ventos, que jamais poria os pés novamente. Aqui, se sentiu em casa, como contou aos jornalista, (Clique aqui e leia) e conquistou sua primeira vitória no ano.

Por parte da imprensa foi o mais assediado da chave e cansou. Sentou comigo para conversar depois de um treino e me questionou: “Vamos começar a falar das polêmicas?”. Eu não sabia muito o que dizer, não queria falar sobre isso. Na verdade queria entender porque ele quis voltar a São Paulo e aí apareceram mil massagens que o cara precisa fazer e ficou “para a próxima”.

Fábio se afastou como quem não quisesse ir, tinha alguma coisa pra dizer…

…A postura era diferente, o sorriso era diferente. Algo me intrigava a mais do fato de ele sempre dançar quando o Carterito aparecia ou a vontade que estava tendo de assistir os jogos do torneio. Fognini assistiu tudo que pode, só viu menos jogos que eu, Diego Schwartzman e David Marrero.

Perguntei a um cara que vivia grudado com o José Perlas (treinador do Fognini) e a quem não conheço no meio do

Brasil Open 2015 - Leandro Martins

Brasil Open 2015 – Leandro Martins

estacionamento do Ibirapuera: “O que acontece com Fognini?” e ele sorriu e me disse em um brado espanhol madrilenho: “Ele está feliz!”

Dada a entrevista perdida, a irmã dele (Fulvia) maluca no Twitter (comigo, claro!), recorri ao pessoal da ATP pra entender o porque da tal desculpa de horário (eu sou chata mesmo!) e a resposta foi: “Fognini chega aqui de coração aberto e tudo o que vocês conseguem escrever sobre ele começa com ‘Bad boy'”.

Vocês não têm noção, mas eu já trabalhei do outro lado, ao lado do atleta (artista) sendo ‘maquiado’ pela imprensa e ofendido com aquilo, voltei a estar no lugar dele e entender tudo.

Novas conversas aconteceram, decidi com a ATP questionar Fognini em coletiva de imprensa (que foi excelente por sinal) na qual ele disse que percebeu que não tinha volta e que precisaria mudar “sim ou sim”, foi a expressão. (clique aqui e leia).

Eu precisava dar a segurança ao italiano de que “a menina com cara de brava” era na verdade só uma doida dando-lhe espaço pra falar. Fábio voltou a falar comigo ao lado de Perlas, ficou sem graça ao ouvir que muita gente o considera uma pessoa de “bom coração”. Fognini voltou a me dizer que tem se esforçado para melhorar em quadra para o próprio bem e para o público que o “vê, torce e sofre” por ele.

“Foi uma questão que eu mesmo vi. Tênis é a minha vida e ele estava ficando por aí e junto com descontentamento, inclusive pra mim”, me disse sorrindo e prosseguiu: “quero jogar meu tênis, ganhar meu dinheiro, vivo disso, sem me preocupar em algo além do investimento que tenho na carreira (gastos profissionais de viagens  e equipe em detrimento de multas). Jogando, sendo feliz.”.

fabio_fognini_wimbyFognini está disposto a mudar e nenhum pouco ansioso. “Eu vou segui neste trabalho, um mês, seis meses, um ano, todos os dias. Quanto for necessário”, revelou.

Aprendeu, não se sabe se pelo amor ou pela dor, que precisa dar tempo ao tempo. Que precisa impor dedicação e amor em lidar consigo, mesmo que doa. Já descobriu que só ele pode se levar ao topo, mas que para derrubá-lo no meio da caminhada tem um monte de gente pra empurrar.

O italiano aprendeu, neste caso pela dor, que não adianta viver para cumprir as expectativas alheias, e que sendo feliz no que quer fazer, pode até não suprir e superar estas expectativas, mas terá paz para seguir seu caminho.

O tênis é meu meio de vida, é o que mais amo, mas não resume o que sou
https://vine.co/v/OQOrTrwM23J/embed/simple

 Bem vindos de volta!

Ariane Ferreira

Anúncios