O Nacionalismo Nazista do Futebol Brasileiro

Fico bem triste de usar o espaço do blog, que eu quase nunca escrevo para dissertar, e também desabafar, um pouco sobre o que o futebol faz com o brasileiro. A maioria, é bom que se diga, porque eu não gosto de nada que coloque todo mundo vindo de um mesmo “saco de estrume seco”.

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Edit: Este post é pessoal e por consequência não recomendado a pessoas que têm problemas de interpretação de texto, ironia; que não saibam o que é figura de linguagem e a quem tem déficits sérios na formação escolar.

Hoje tivemos uma felicidade enorme, a seleção brasileira jogou de uma forma que não estamos tão habituados assim, sujaram os calções e pararam a competente e habilidosa Colômbia. 2×1 pra gente, estamos na semifinal.

Infelizmente, o resultado da partida veio com uma noticia muito, muito triste. Nosso craque, nosso camisa dez, nosso homem gol está fora da Copa do Mundo. Após sofrer uma entrada imprudente do lateral direito colombiano Juan Camilo Zúñiga, o Menino da Vila fraturou um osso na região da terceira vértebra lombar e precisa de quatro a seis semanas de repouso e cuidados.

A notícia é triste, quem trabalha com esporte como eu, detesta noticiar ou ficar sabendo de qualquer quadro de lesão e aí quando é com alguém que a gente torce ou é próximo a notícia fica ainda mais pesada, mas sinceramente estou assustada com a proporção desta situação.

Vamos por partes.

Não vou embarcar no populismo barato, daquele que só serve para atiçar sentimentos ruins. Contusões acontecem, são do jogo.

— Antero Greco (@anterogreco) July 5, 2014

O tweet do Antero Grego, jornalista em quem me espelho muitas das vezes e com quem aprendo muito mesmo a distância, resume exatamente o que eu vi na imprensa brasileira. Aproveitando de um momento “sensível” dos torcedores, alguns em busca de Ibope, outros tomados de um pachequismo sem tamanho e  outros sei lá movidos pelo quê, passaram a bradar na TV,  Rádio, redes sociais e afins que o jogador colombiano era um “vagabundo”, “maldoso”, “canalha”, “bode expiatório”, “assassino”, “anjo do capeta” e coisas piores.

Jornalistas dizendo isso de um cara que tem dois filhos pequenos e que escolheu o futebol como meio de vida.  Um atleta, e que por ser tal, jamais entraria numa dividida com o adversário pensando: “Ah hoje eu tiro esse tal de Neymar da Copa. Eu vou embora, mas ele também vai“.

Por favor, poupem a minha inteligência.

Enfim, na onda de muitos jornalistas e principalmente movidos pela própria ignorância as pessoas começaram a atacar o colombiano pelas redes sociais. Os branquelos brasileiros, que nunca conviveram com um negro ou um índio na vida passaram a insultar o Zúñiga com palavras com objetivo e de conotação racista. (Hastag VERGONHA, SHAME, VERGÜENZA, VERGOGNA, SCHAM, عار)

Pobres brancos arianos….

Tá duvidando? Olha essa reportagem do UOL: “Colombiano que lesionou Neymar sofre insultos racistas de brasileiros

Bom, além dos brancos arianos, nós temos os justiceiros. Alertada pela amiga Sarah Brasil, essa sim tem até Brasil no nome, descobri que brasileiros e não era uma meia dúzia, estavam no Instagram da ESPOSA do Zúñiga postando ameaças, xingamentos, juramentos de morte e pior até ameaçaram a filha do casal, uma menina de no máximo DOIS ANOS de idade, de estupro.

Vou repetir: Não foi um, nem dois, foram vários, que chamaram a garotinha, que nem o nome eu sei, de “puta” e afirmaram que a “estuprariam” e outros termos nojentos pertinentes a ameaça.

ONDE ESSE MUNDO VAI PARAR?

Os comentários no Instagram do jogador são os piores: “Colombianos assassinos, todos Farque” (o ignorante desta não sabia escrever Farc e nem deve saber o que é), “Hijo de Puta“, uma diz que o “PCC tá chegando“, “Fica esperto tô na sua cola” (sic) posta outro em várias fotos e tudo por quê?

Para defender o “Brasil (Neymar)“, para se impor “como nação”, para dizer que “lutamos, mesmo com armas, pelo verde-amarelo”…

OI?

Esse povo todo não me representa.

Na verdade, eles me dão asco, vergonha de ser “brasileira” e ser tachada como tal. Por essa turma eu só consigo ter mais desprezo.

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Os caras  estão xingando a mãe do cara. Eles estão pensando o quê? Mãe é SAGRADO. A minha é e a de cada um de vocês também é. Qual a história por trás dessa mulher? Quantas vezes será que ela escondeu os filhos debaixo da cama para protegê-los das incursões das FARC nas cidades quando eles eram pequenos (fim dos anos de 1980 e inicio de 1990)? Quantas vezes ela, coitada, lembrou do zagueiro Andres Escobar quando o filho disse que ia ser jogador de futebol? Quantas vezes durante esse mundial ela não colocou o joelho em terra pra rezar um terço pro filho não fazer um gol contra?

Candidata do PT deseja morte de jogador da Colômbia no Twitter

O que será que essa mãe pensou quando a nora a avisou dos incidentes das redes sociais, lembrando que o filho está no território de um país irmão longe da proteção dela e possivelmente na mira dos nossos bandidos? Será que ela vai conseguir dormir hoje? O que ela tem a ver com o jogo de futebol?

Não acho resposta pra nada disso. Mas se tem uma coisa que me enoja no Brasil, sempre me enojou por experiência própria*, é o nacionalismo que toma conta do Brasil como se não houvesse outra nação e como se fôssemos muito superiores aos demais durante uma Copa do Mundo e só nela. O Brasil, num geral, ganha uma conotação norte-americana em uma estratégia de ataque “intelectual” semelhante ao usado pelo nazismo. “Somos superiores e pronto. Somos sangue puro do futebol“…

Somos mesmo, jogamos na retranca desde 1895. Hoje em dia tá igual, sangue puro…

Isso não tem a ver com patriotismo. Patriotismo é outra coisa…

 

Perdoem-me pelo desabafo.

Só que aqui, escreve uma brasileira que entende que houve falta, que sabe que o jogo fugiu do controle do árbitro por culpa dele mesmo, mas que não acha que alguém pode ser condenado por uma partida de futebol. Eu já entrevistei a filha do Barbosa, vocês não têm ideia da prisão em que ele viveu. Do que ouvi da boca da Tereza Barbosa, eu não desejo nada nem ao pior dos meus inimigos…

Ariane Ferreira

* A experiência própria é que em 1998, na época da preparação da Copa a escola onde eu estudava organizou uma “Copa das Nações” em que cada sala estudou e representou o país em uma feira cultural. Eu estava na quinta série, tinha dez anos e no bolão da sala eu apostei “Brasil chega a final e perde a copa”. Eu apanhei um dia após a final por “ser anti-patriota” e por “odiar o Brasil”. Só não apanhei da sala toda porque a professora chegou bem na hora.

Como vocês viram, meu nojo é pessoal mesmo.

ATUALIZAÇÃO: Caso mais alguém não entendeu o “anti-patriota” da menção acima. Meus colegas de sala me consideraram assim “anti-patriota” por TER APOSTADO CONTRA A SELEÇÃO BRASILEIRA EM 1998. Eu não odeio o Brasil e em hora alguma eu disse isso.

pensamento

Quem quiser, fique à vontade para comentar…

Ps: Este texto expressa minha opinião, você tem o direito de discordar e a obrigação de respeitar.

ATUALIZAÇÃO 8/07/2014
É esse tipo de “patriotismo” que eu estou atacando no post.

 

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