Lembranças de uma Copa…

Decidi compartilhar algumas das minhas boas histórias de Mundial. Minhas lembranças começam cedo, Copa de 1994, em que a maioria dos meus amigos de mesma idade, um ou dois anos mais velho, sequer se lembram. É o tipo de lembrança digna de molequinho, confesso, mas eu vou fazer o quê?

Bem, a Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, começou logo que eu fiz sete anos, e confesso, não lembro de muita coisa. A primeira coisa que me marcou em termos de seleção brasileira foi exatamente esse jogo, para ser mais exata a jogada aos 2:37’….

Digamos que eu, quando criança, fosse uma “Leonardete”, lembro bem que estava sentada no chão da sala da minha casa, quase deitada, talvez em um almofada, e na hora que o juizão puxou o cartão vermelho e o Galvão Bueno disse: “EXPULSO! Está expulso Leonardo…“, eu simplesmente fiquei revoltada com o juiz (olha isso!) e lembro bem que eu disse: “Esse cara é folgado, tá empurrando o Léo (olha a intimidade) toda hora. Merecia apanhar” – OLHA A MENTE DA CRIANÇA AOS SETE ANOS.

Também me recordo que meu pai falou: “Não filha, ele bateu no cara, não pode” e eu obviamente retruquei chamando o americano de banana ou algo do tipo. Minha reação foi exatamente como a do narrador do KiGol no vídeo. (risos)

Aí me recordo que o Branco passou a ser o titular, graças a suspensão (ETERNA) do Leonardo. O “novo lateral” do Brasil quase matou um fotógrafo, vocês lembram disso? Eu não me esqueço, aquilo foi um susto e tanto. Até teve o  Jornal Nacional dizendo que a FIFA ia estudar suspender o Branco também, isso porque o manda-chuva era o João Havelange.

Votando: a melhor coisa que o Galvão disse durante toda a Copa não foi “É TETRA! É TETRA!” e nem “Vai que é SUUUUA Taffarel” e sim: “RAÍ NO AQUECIMENTO. Humm, agora né? Agora que a porta tá arrombada põe a tranca nova!” SIMPLESMENTE DIVOU o senhor Galvão Bueno. (hastag: only heart pra ele).

Caso alguém não saiba, o Raí começou a Copa como TITULAR e CAPITÃO da seleção.

Sabe o que é legal? Eu ia postar a falta do Branco contra a Holanda e achei uma edição exatamente com a frase do Galvão. Olha aí…

Observem o letreiro verde-amarelo, é show. Tem mais: Muller NUNCA soube comemorar gol. (hastag: morrendo de rir)

Depois deste jogo de quartas, teve aquele jogo tenso contra a Suécia. Lembro apenas de que o Romário achou um gol, perto do fim do jogo.

Aí veio a final.

Em casa a coisa do futebol é curiosa, somos três filhas mulheres, o único homem é meu pai e todos gostamos de futebol. Minha irmã mais nova tinha meses na Copa de 1994, então não conta, mas nós todos (minha mãe inclusive) apenas gostamos muito de acompanhar futebol, mas como um ESPORTE, uma diversão e porque não meio de conhecer e aprender coisas diferentes?

Somos uma família de pai santista, mãe palmeirense, eu a mais velha sou são-paulina e minhas irmãs corinthianas. Todos torcemos e vivemos muito bem.

Este era basicamente o espírito da final da Copa em casa. Minha mãe é neta de italianos, e foi criada no sistema da bota, meu avô fazia questão, já que ele mesmo não foi criado pela mãe italiana, que morreu muito jovem. As histórias de copas com Brasil vs Itália eram antigas na vida da minha mãe. Em 1982, a cidade dela toda parou para ver o mundial do México, porque o Eder era primo, tio ou agregado de boa parte da cidade. Ele é parente na minha mãe, só não lembro o quê… é bem provável que seja primo.

Vocês podem imaginar o drama da derrota de 1982. Pois bem, meu avô ficou no lucro afinal “a terra da mãe dele” venceu. Não preciso dizer que depois daquela derrota minha mãe “desfanatizou” e passou a encara uma vitória da Itália como dela (nós por consequência também).

Então, o clima da final era de “lucro”, mesmo assim era de apreensão.

Assistimos a final todos juntos, comemos alguma coisa, talvez pipoca, mas ficamos boa parte do jogo CALADOS. O que não é normal pra mim, quem dirá para minha mãe. (hastag: denegrindo a família e rindo)

Enfim, lembro bem que algumas coisas na Itália me chamaram a atenção:

  1. A primeira delas responde pelo nome de Paolo Maldini. Juro pra vocês, daquele dia em diante passei a acompanhar o Milan, uns tempos mais, outros menos, por causa dele. Eu simplesmente o achei excelente. Não tenho números, mas na minha cabeça ele ganhou TODAS do Romário, aquilo obviamente me assustou, mas me encantou também. Aquela dupla com o Franco Baresi é mitológica.
  2. O trabalho que o Roberto Donadoni deu pro Jorginho, em todos os sentidos, atacando e defendendo.
  3. Demetrio Albertini anulando toda e qualquer tentativa do Mazinho. Isso fez meu pai sofrer, lembro que ele dizia: “Mazinho tá marcado, Dunga, olha o Zinho”. (Como se o Dunga fosse ouvir o meu pai, pensei).
  4. A CATEGORIA de Roberto Baggio.

A Itália me ensinou algumas coisas também:

  1. Nem todo homem italiano é bonito. Era duro olhar pro Arrigo Sacchi;
  2. Gianluigi Pagliuca foi a grande prova de que eu não estava errada sobre Claudio Taffarel. Eu pensava: “o Zetti é melhor que ele. Deve ter goleiros bons no mundo. Melhor que Taffarel” (Coisa de criança gente, nem me questionem sobre. Grata!)

A final foi ali no meio de campo, onde o time da Itália era tão bom quanto o nosso. Aliás, aquela era uma grande seleção, talvez melhor que brasileira, a pensar…

Bom, eu não entendia de tática, eu só sabia o que era legal ou não de ver. Foi um jogo nervoso, meio feio (tirando pelos italianos) e vieram os pênaltis…

Não posso dizer com exatidão sobre todos os pênaltis, mas lembro que quando o Baresi bateu e o Galvão gritou fiquei procurando a bola na tela (Elano feelings) , não tinha entendido se tinha sido gol.  Aí eu achei muito fofo que o Taffarel foi consolar o Baresi. (não sei o que ele disse, mas pra mim ele estava consolando o italiano, “mim deixem”).

Quando o Pagliuca pegou a cobrança do Marcio Santos meu pai deu um grito: “Cacilda!

Cacilda era uma vizinha da minha tia lá em Minas, também era a personagem da Claudia Jimenez na Escolinha do Professor Raimundo, mas em casa ‘Cacilda’ era palavrão… um substitutivo para você imaginar o quê, mas que até aqueles tempos eu não tinha ouvido na vida.

Bom, o “Cacilda!”  do meu pai, além de me assustar, me disse: “Tá feia a coisa.”

Ali, descobri que “adivinhar o canto era uma coisa RUIM”…

A seleção tinha algumas coisas que eu amava, como jogadores e ex-jogadores do São Paulo (eu tinha sete anos) e eu adorava ver o Viola no campo, não sei explicar porque o Viola na Copa, no campo, era legal.

A dramaticidade da transmissão esportiva já existia. Ao mesmo tempo que o time brasileiro tava sentado no meio do campo, uns rezando de joelho e tudo mais, o banco estava todo abraçado e de pé. O take da câmera passando na frente do banco brasileiro me lembrou o Ayrton Senna, mas aí me revoltou. O Raí estava no banco. Ah tinha um “moleque” (Ronaldo), que eu apenas me ative ao fato de chamá-lo de moleque.

Como toda criança eu gritava “VAI QUE SUUUUUUUUUUUUA, TAFFAREL”.

Também berrei GOL, como se já tivesse vencido o jogo, no pênalti do Dunga.

Mas a cobrança que está mais clara na minha lembrança é a do Baggio. Na hora que ele pegou a bola para por na marca do pênalti, meu pai ou minha mãe disse: “Esse é craque!”. Não sei explicar, ele tava confiante, a cara dele era “eu vou fazer”, aí…

ACABOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

É TETRA! É TETRA! É TETRA!  (música do Senna – Canção da Vitória).

Eu aprendi a celebrar o futebol naquele dia. Até então eu achava que sabia fazer isso.

E vocês têm uma lembrança de Copa assim?

Obrigada pela visita.

Ariane Ferreira

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