Uma punição para Fábio Fognini

Eu decidi escrever sobre o incidente do italiano Fábio Fognini na Quadra 3 do complexo da Caja Mágica em Madri, afinal li, vi e ouvi muitos julgamentos e sentenças que não condizem com o procedimento do esporte tênis.

Para quem não viu o que aconteceu, o italiano, para variar só um pouco, teve problemas com o árbitro de cadeira,o marroquino Mohamed Lahayni.

Aquém das discussões de bola dentro ou fora em diversos pontos – o que é bem comum em jogos no saibro -, Fognini ameaçou o árbitro em alto e bom som, numa demonstração clara de desrespeito a autoridade ao marroquino conferida àquela partida. Sem comentar o desrespeito com o adversário (o ucraniano Aleksander Dolgopolov), público presente, pessoas que trabalham no torneio e o público em casa que assistia em todo o mundo as cenas patéticas do ligúrio.

Ainda não sei como a ATP, Associação dos Tenistas Profissionais, vai enfrentar o caso, até porque muita gente no torneio e na mídia mundial tem bradado contra as atitudes do italiano. Entretanto, li, ouvi e vi muitas sugestões sobre como a ATP deveria proceder neste caso, a maioria destas sugestões me soaram no mínimo de gosto duvidoso, como o banimento do atleta do esporte e coisas do tipo, então decidi mexer nos meus arquivos para opinar com base nas regras e leis do desporto tênis.

gato

Acredito que a maioria das sugestões vi têm a mesma validade e efetividade do salto deste gato acima. São propostas ineficientes dotadas de um pachequismo bisonho que produz definições porcarias como chamar Fognini de “câncer do tênis”, “príncipe mimado” (a versão masculina do Roberto Bautista Agut, hastag #aprovado by Ernests Gulbis), “tumor”, “principio do fim” e coisas do tipo.

Tenho uma opinião controversa para a maioria no quesito “bad boys” do tênis.

Eu, Ariane Ferreira, não acho que o cara, seja quem for, tenha que levar uma chamada/punição do árbitro a cada palavrão que falar, raquete que quebrar, grito que der. Até porque há culturas como a espanhola em que falar “mierda”, “porra”, “carajo”, “puta madre”, “puta mierda” e outras coisas é algo normal e equivale ao famoso “Cacilda” que meu pai usa muito, mas é pra substituir um “palavrão”, assim como outros artifícios da língua. Então “mierda” pra um espanhol, argentino é algo normal, se sair da boca de um mexicano, reflita.

Olhando pela a ótica da ATP, que está totalmente descrita no livro das regras, falar “puta mierda” mais de duas vezes em um game pode conotar “Abuso verbal”, que tem punição prevista nas regras da “liga” e fica a cargo do árbitro de cadeira. Não dá pra condenar a ATP, o mesmo jogo que eu vejo e não ligo para o tenista que grita “mierda”, um pai na Macedônia acha que está sendo agredido também. Sendo assim, mesmo discordando, a punição tem um sentido.

Bom, antes de destilar uma aula de moral e bons costumes para o Fábio Fognini, tentei me colocar no lugar dele – eu sempre faço isso e não gosto muito do que imagino, rs.

Enfim, todas as “confusões” que o Fábio teve no circuito, de bater boca interminavelmente com o Carlos Ramos, de perguntar se o Cedric Mourier “tinha dormido bem, se estava descansado, feliz”, de dizer ao Carlos Bernardes que ele queria complicar algo fácil e ter um acesso de raiva/desespero em Wimbledon e quase matar o Pascual Maria de tanto rir e afins, eu sempre procurei pensar no momento do jogo, na tensão daquele momento e dos aspectos pessoais do Fábio para entender. Não justificar, mas entender mesmo e saber ponderar o quanto aquilo foi instintivo/impulsivo ou não.

O grande problema é que quando era top 50, ver os chiliques do Fognini pela TV uma vez por mês era engraçado pra todo mundo, mas o patamar dele foi mudando e as pessoas foram o vendo mais, o assistindo e o contraste da personalidade dele para o comportamento de geral do top 30 é enorme e isso irrita o público, que ou se desacostumou com os “bad boys” já que o Marat Safin não joga desde 2008 e o Marcos Bagdhatis melhorou 109% ou nunca viu isso no esporte com tanta frequência.

Há que se considerar a geração de fãs do esporte que surgiram com Rafael Nadal e Roger Federer e acham isso fora do contexto do esporte de classe, sem violência, etc etc.

Tendo observado isso também em relação a “condenação” sumária do italiano, venho lembrar que em 2011, em um jogo contra Nadal, em que tivemos uma marcação duvidosa e ele foi derrotado, Fognini disse aos quatro ventos “Em jogo com top 20 em quadra, na dúvida, marcar a favor do melhor ranqueado”.

Ele repetiu isso muitas vezes, em várias oportunidades. Talvez, Fabio tenha adotado pra si esse argumento e agora quer, mesmo que inconscientemente, fazer com que isso aconteça sempre.

Esse vídeo de Indian Wells este ano é um grande exemplo de que Fábio Fognini, de alguma forma, acredita que está acima do “bem e do mal”, que as regras são para os outros, afinal, ele é um top 20.

Neste caso específico, Fognini agiu contra várias regras do tênis, descritas no livro da ITF, Federação Internacional de Tênis, que define as regras da prática do esporte e da ação dos atletas em quadra.

A conduta do italiano foi, observando as regras universais do esporte, antidesportiva e se levada ao pé da letra requer processo institucional para aplicação de punição por parte da ITF. Entretanto, percalços dos torneios dos circuitos ATP/WTA têm a definição de punição nas mãos das ligas. Em casos como o do Fábio, normalmente se julga a situação no pós jogo, com  ajuda da “súmula” da partida, e a punição é normalmente financeira e não é descontada da premiação do atleta. O jogador precisa receber e se dar o trabalho de pagar, ele mesmo, porque tem que assinar esse pagamento para não sofrer sanções como ficar proibido de competir no futuro, como diz o Livro de Regras da ATP.

A forma como foi tratada a situação em Indian Wells, na minha humilde opinião, é que gerou as ameaças de ontem.

Dada a ocasião na Califórnia, Fábio foi multado pela ATP, especula-se nos bastidores que o valor foi de 5 mil dólares, dói no bolso, mas nem tanto, convenhamos.

A questão crucial pra mim é que, além de infligir regras do código do esporte, Fábio Fognini brigou com a determinação que mais aparece no livro de regas da ATP: “O arbitro de cadeira é única autoridade em quadra. Suas decisões são soberanas e apenas deverão ser aceitas pelos atletas”.

Abaixo o espaço da décima vez em que isso aparece no livro da ATP, localize na página 119:

g) Players may not cross the net to check a ball mark without being subject to
the Code. A player may not erase marks unless he is conceding the call or
after a ball mark inspection occurs and the chair umpire has made a final
decision

Portanto, Mohamed El Jennati era a “autoridade” como ele mesmo disse a Fognini, que retrucou: “Eu realmente tô me f* para sua autoridade, chame o supervisor”. Lars Graf veio e falou o óbvio: “a decisão é dele, ele é a autoridade”. O vacilo foi o “mimimi” todo que foi gerado:

Fábio ficou bravinho, xingou quanto quis, exigiu a presença do Lars e foi atendido (opa!), discutiu com o rival (Ryan Harrison), o que também é contra as regras da ATP, chilicou com o Lars por quase um minuto e apenas foi multado. Não passou por uma audiência*, não pediu para rever a súmula, pagou e pronto “estamos todos kits”.

* Audiência de punição existe com o atleta caso ele peça revisão da multa e/ou punição, o jogador precisa estar acompanhado de um advogado e trazer provas de inocência.

O grande erro da ATP foi tratar o Fognini como ele achava e dizia que todo top 20 é tratado: “carregado no colo”. Aí quem tem tendência a ser folgado, abusa…

O vídeo abaixo mostra um exemplo da regra da “autoridade arbitral” sendo cumprida na semifinal de um Grand Slam (Us Open 2009) contra uma tenista local (Serena Williams).

Serena cometeu o “foot fault”, perdeu o ponto, que era match-point para a Kim Clijsters, discutiu com a juíza de linha. A arbitra de cadeira, Eva Asderaki (se não estou enganada), não deu papo para a Serena, chamou a juíza de linha e a supervisão na sequência, afinal a regra diz que esse tipo de reação, quase ameaça, deve ser punida com um “game point”, quando o atleta perde um game inteiro. Mesmo que punisse Serena com um ponto, Eva definiria que Kim iria à final, preferiu não decidir sozinha. Fez tudo dentro da regra, tanto que no pós jogo, Serena sequer a cita ou se julgou injustiçada.

Dentro do que aconteceu ontem, Fognini podia ter sido punido em um ponto por “conduta antidesportiva” e em um game por “abuso de violência verbal/ameaça” e pode ser multado por “ameaça” no caso da frase “Quero te ver aqui agora (fora da quadra). Não tenha medo. Não seja covarde”. Somando tudo a multa deve ser de uns 10 mil dólares.

É muito dinheiro, mesmo para o italiano que beira o top 10, mas é punição, não é educação.

A próxima reunião dos atletas do top 100 + os agregados, que são tipo o Thomas Bellucci pertencem a turma, mas estão fora no momento, será em breve, em Roland Garros. Acho que é hora de uma punição exemplar, que sirva para os demais atletas repensarem desrespeitos com os árbitros como Nadal ficar pedindo para o juiz advertir os rivais por causa do tempo de saque, Rafa não é o único a fazer isso, e outras coisas.

A ATP pode perder uma grande oportunidade de deixar de ser uma liga feita por atletas, para atletas em detrimento de tudo que envolve um esporte e passar a ser uma mãe de um monte de meninos mimados e irritantes, vide que de bonito chiliquento, Fognini virou um “folgado sem educação” e eu tenho lido isso em todos os idiomas que domino.

Que punição seria essa? Afastamento discordo, não acho mesmo que tirar o cara do circuito vá ajudar em alguma coisa. Eu optaria, de verdade, por um programa educacional para o Fognini e mais alguns Jerzy Janowicz e Gulbis podiam encabeçar a turma. Colocá-los na ATP University não apenas para entender a máquina econômica da liga e nem a parte médica/nutricional, mas sim a social.

A ATP é global e quer cada dia mais ampliar seus horizontes e fronteiras, para isso é preciso falar com todos e se tem uma coisa que faz o diálogo fluir com diferentes pessoas não é o jeito irreverente do Fognini, que é querido pelos colegas de circuito, e sim o RESPEITO, que ele não tem tido nem por si próprio, vide a final em Munique, deu dó do Martin Klizan.

Aus Open

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