Caça às bruxas no tênis

Eu estava de miniférias, mas uma vez que você decide ser jornalista, você não tem férias reais. Eu acompanhei desde o começo, na época ainda trabalhando, as denuncias de vendas de resultados de jogos de tênis, até surgir a informação de que um tenista estava sendo investigado por isso.

Tentei observar, ler, ouvir e conversar muito antes de querer ter uma opinião formada sobre. Na anti-véspera de Natal foi divulgado que o investigado e considerado culpado era o tenista espanhol Guillermo Olaso, que pegou pena de 5 anos. Por ter acompanhado, à distância, decidi publicar sobre o caso.

Aviso isso aqui é única e exclusivamente minha opinião. Concorde ou discorde, leia até o fim se puder (e quiser)

Eu não quero fazer a advogada do diabo, mas essa punição soa para mim no mínimo esquisita para dizer o mínimo. Não estou cravando que o Olaso é inocente, eu mal ponho a mão no fogo por mim, mas sinceramente pareceu uma grande caça às bruxas e a “cabeça do Olaso rolou” no tribunal inquisitório da ética no tênis. Digo isso, porque ele pareceu o bode expiatório mais lógico e próximo a punição.

Guillermo Olaso

Guillermo Olaso

Deixem-me explicar o porque disto. Vamos por tópicos:

  • A condenação do espanhol é tardia.

Se deu por uma situação ocorrida em 2010; Até aí tudo bem. Antes tardia punição ao simples ignorar de um ato ilícito. o que me surpreende são as provas.

O que se tem contra o Olaso é uma conversa pelo Skype entre ele e o sérvio David Savic. A tal conversa, segundo apuraram alguns jornalistas espanhóis – dentre eles um amigo -, trata basicamente da proposta feita a Olaso para vender o resultado da partida. Entretanto, a suposta venda não é confirmada por meio deste “papo” e nem em outros “autos” do processo.

De acordo, com a apuração da equipe do programa de radio Planeta Tênis, da FM Star de Barcelona, o arquivo desta conversa foi encontrado no computador do sérvio que foi banido do tênis profissional em 2011, após ser investigado durante parte de 2010.

Essa informação, que foi dita em juízo no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte – primeira instância), que auxiliou o TIU (sigla em inglês para Unidade pela Integridade no Tênis). O TIU foi o responsável por pegar as provas colhidas e investigadas pela ITF (Federação Internacional de Tênis), deliberar no Conselho Superior do Esporte, em Londres, onde o tenista foi julgado e aguardou 12 dias para ver a pena de 5 anos sem poder competir ou 3 anos em meio, caso Olaso aceite passar por um processo de reciclagem e um curso de ética no esporte.

  • A investigação parece ter sido de orientação duvidosa, pois chegou à imprensa de maneira MUITO rápida.

Não foi preciso se apurar tanto. A informação da investigação de um atleta espanhol chegou primeiro aos ouvidos de tradicionais jornalistas do tênis espanhol. Quando o procedimento correto seria avisar o tenista, colher provas com ele e avisar a federação local, inclusive para que esta lhe ajudasse com alguma informação.

Para mim, isso é um feeling pessoal NÃO É INFORMAÇÃO, a investigação se deu após a realização de inúmeras reportagens do jornalista argentino, Nacho Mühlenberg, que vive em Barcelona e apresenta o programa Planeta Tênis e escreve para o Punto de Break, sobre a venda de resultados e apostas.

O Nacho teve como fontes tenistas espanhóis que disputam o circuito Challenger e Future, que competem basicamente na Europa. A reportagem trouxe alguns detalhes de abordagens, que tipo de pessoas e grupos propõem isso a um atleta qualquer, etc etc.

Essa reportagem, como algumas outras e postagens em blogs como o Game, Set and Match, do jornalista Lucas Wilches,  lembraram que muitas vezes a chance de vender um jogo por 30 mil euros, representa os gastos de algumas semanas no circuito pagas.

Não que eu aceite como desculpa.

Sabendo disto, das reportagens, é lógico que alguém no TIU ou na ITF se sentiu pressionado, até porque nenhuma das organizações se pronunciou sobre. E olha, não adiantou gastar com ligação para fora do Brasil e nem mandar e-mails.

É claro que “o” de alguém estava em jogo após essas denunciais. Por mais que muita gente do jornalismo de tênis tenha simplesmente as ignorado. Conheço muita gente que começou a correr atrás disso. Sem contar que havia gente já atrás desta informação antes das denuncias. Logo, a ITF precisava de uma resposta incisiva, direta e enérgica.

Se euzinha tivesse que ajudar a dar esta resposta, iria “cavar” de um lado primeiro: “Achar o nome de um espanhol que tivesse sido denunciado ou passado por alguma investigação ou mesmo como testemunha (Seja de acusação ou defesa) em processo semelhante”.

Acho que foi isso que fizeram, porque ao que se sabe, a conversa que condenou o Olaso foi retirada do computador do Savic, que sofreu investigação entre 2010 e 2011 e foi condenado em 2011. Logo, o silogismo da situação me diz: essa conversa já havia sido investigada dada a ocasião da condenação do sérvio. Aí eu me pergunto: Por que punir o Olaso agora?

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  • O espanhol não tem perfil para vender jogos;

Não estou dizendo que ele é inocente. Mas o Guillermo Olaso não precisa gastar para treinar, a mãe é dona de uma academia de tênis. Outra, o irmão mais novo dele (Miguel 18 anos) acabou de se profissionalizar e ele é de cultura ibérica, não iria prejudicar um irmão de quem possivelmente é ídolo. E mais, a irmã do meio dele, Fátima, é assídua no circuito Future da WTA.

Além do pessoal, o ano em questão, 2010, foi um bom ano pra ele. Ele começou com quartas de final no Challenger de São Paulo, aquele do inicio do ano. Fez campanhas médias, três semis seguidas em Futures da Espanha em março. Voltou ao Brasil para jogar Blumenau, caiu na estreia. Jogou Curitiba e Manta (Equador), caiu na estreia e fez semi no Cairo (Egito). Ganhou dois Futures na Bielorrússia, fez duas finais na Espanha e venceu um future espanhol uma semana antes da partida contra o cazaque Daniil Braun em Astana, no Cazaquistão, na primeira semana de novembro. A temporada acabou ali e o espanhol se retirou para se recuperar de uma lesão. Pelo menos foi o que ele justificou.

O ano seguinte foi o melhor da sua carreira. Isso sem contar que o Olaso faz parte dos programas de incentivo da RFET (Real Federação Espanhola de Tênis) e também do País Basco, estado de onde ele é, onde grande parte dos seus gastos em competição são pagos por esses sistemas de incentivo.

O perfil de venda de resultados é basicamente de tenistas que são mais jovens que o Olaso, que hoje tem 25 anos e na época tinha 23, que estão entrando no profissional. Os mais experientes, tipo do Daniel Köellerer – aquele austríaco que foi banido do esporte por envolvimento com apostas-; começam cedo, são do tipo provocadores ou amigos de todos, o que facilita o recrutar de tenistas. Isso segundo investigações e dados do próprio TIU.

Outra, estes tenistas normalmente estão longe de casa. Outros têm em seus “agentes” ou treinadores como os responsáveis por essas vendas, dada a imaturidade deles para negociação. (Essa você também acha na matéria do Punto de Break)

  • A ITF não quer cutucar para não derrubar gente graúda ou descobrir coisas que não seriam boas para a imagem do esporte.

Penso eu  que punir um cara 200 do mundo que só a imprensa especializada do país dele o conhece é mais fácil que fazer a água bater na bunda de um top 100.

Tirando a visão lógica da coisa, é só a gente lembrar da entrevista do Feliciano López ao Rafael Plaza para o Tennis Topic em que o Feliciano fala das apostas, de que é difícil poder identificar, que nunca recebeu uma proposta, talvez por ser onça velha no circuito, mas que conhecia histórias e tinha ouvido conversas.

A história que ele citou: “Janko Tipsarevic teria recebido uma proposta para vender seu jogo, salvo engano a 50 mil euros, durante um torneio na Rússia”.

Entrei em contato com o Tipsarevic, ele não quer fazer alarde sobre o assunto, mas nega. Mandou a equipe me explicar que esse tipo de situação deve ser apresentada a ATP, deve ser denunciada em detalhes para que o esporte seja limpo. Falaram comigo sobre honestidade, esporte limpo e o fato do Feliciano ter dito a eles (equipe do Tipsarevic) que nunca falou sobre.

Feliciano é um cara que eu admiro pela inteligência. Ele é do tipo que fala demais se está nervoso, pressionado, sempre ótimo para entrevistas, bate-papo, conversa sobre arte ou futebol, política e pedir dicas de tênis. Ele não falaria esse tipo de coisa de qualquer maneira. Outra, ele conhece o Rafa, daria esse tipo de informação pra ele. Já namorou jornalistas, aliás namora uma atualmente (que é mais apresentadora), tem 15 anos de circuito, sabe como nos comportamos diante desse tipo de declaração. Sem contar, que ele é um estudioso do jornalismo mundial.

Ele falou consciente. Pronto tá dito.

Eu acredito mais no Feliciano, neste caso que no Tipsarevic, não que o sérvio seja uma má pessoa. Nem acredito que ele tenha vendido um jogo, mas o histórico condena.

Eu explico.

Janko é o tenista da atualidade que mais se retirou de partidas, 20 no total. Não estou dizendo que não eram por lesão. Lá em Valência, por exemplo, ficou claro que ele não aguentaria muito, mas abandonar com 17 minutos de partida e sair correndo para o aeroporto para não perder um voo me diz que ele planejou a retirada. Podia ter nos poupado a correria. Até porque infelizmente está lesionado até hoje =(

Prosseguindo sobre as retiradas do Tipsarevic, elas também têm a ver com as regras e exigências da ATP, que obrigam jogadores a entrarem em quadras em um X números de torneios obrigatórios na temporada. Mais uma vez vou dizer: NÃO ESTOU DIZENDO QUE ELE VENDE PARTIDAS, só estou pontuando.

Retiradas também são mecanismos de apostas em certos sites e casas de aposta. Também são ponto alto de faturamento nas conhecidas bolsas de atletas, que funcionam de outra forma, como o mercado financeiro onde as “ações” são os atletas. Retiradas, mesmo que reais, quando planejadas podem gerar lucro para quem tem informações privilegiadas, como médicos e fisioterapeutas dos torneios. Que segundo as apurações do Nacho nas reportagens que citei anteriormente, também são fontes e mecanismos das teias dos grupo de vendas de apostas e tudo mais.

Voltando ao Tipsarevic, podemos considerar que ele é top 50 há alguns anos. Logo deve ter ouvido propostas nos torneios de Moscou ou São Petersburgo, que atraem naturalmente  mais apostas e por isso pagam altos valores a seus vencedores.

Bom, se eu estivesse na Rússia e ouvisse uma proposta desta, ainda mais no meu quarto de Hotel, ficaria no mínimo acuada. Sinceramente, acho que teria um cagaço e teria vendido o jogo só pra me ver livre do torneio, do esquema, do assédio e do país numa tacada só.

A Rússia me parece ser um país ótimo, conheço boas pessoas de lá, mas todos nós sabemos dos sistemas de máfia, caixa dois, etc etc que dominam o sistema econômico do nosso companheiro de Brics. Logo, eu também teria medo de denunciar ou falar sobre.

Não dá pra julgar o Janko por isso.

Mas, meu sábio avô, no auge de sua italianice dizia: “Minha filha, cachorro sabe a moita que mija“.

E por saber onde pode urinar, a ITF mexeu no “vespeiro depois do fumacê“.

Adoro ditos populares.

Vamos ler?

Voltando a ITF, declarações como a do Feliciano, reações como a do Tipsarevic não são boas para a imagem do esporte. Estamos falando de um ex-top 10 e um ex-top 15. Ambos top 30 experientes, conhecidos, com contratos de publicidades importantes, com empresas cruciais para a manutenção do esporte, etc etc…

Rola uma caça às bruxas natural. Uma resposta imediata, mas a pergunta é: “Pescaram o peixe certo?”

Tinha fechado o post, mas li a coletiva de imprensa que teve na RFET e a declaração do Olvido Aguilera, responsável pelo tênis feminino da federação e que respondeu à ITF sobre a investigação do Olaso, me chamou atenção. Lei na integra:

“Não tem muito sentido  que a presunção de inocência não exista para cidadãos do Estado espanhol e neste caso não foi levado da maneira certa. Foram feitas declarações desde o Conselho Superior dos Esportes, com quem temos uma relação magnífica, e se tomaram ações com uma série de despachos de advogados que acredito que não procedam, fundamentalmente porque nossa federação não teve notícias deste caso por parte do Conselho. Em seguida teve a sanção por parte da ITF, mas as coisas têm que começar a ser levadas de outra maneira, porque no esporte a transparência tem que ser absoluta, e para que assim seja, temos que seguir cumprindo umas regras. temos que ser especialmente cuidadosos com este tipo de comentário. Foi levado de uma maneira infeliz”

Bom, que jeito esquisito de terminar o ano.

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Ps: vale lembrar que depois da Operação Porto, todo e qualquer espanhol é o primeiro suspeito.

Espero que este não seja meu último post aqui em 2013.

Ariane Ferreira

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