(3) Política e Esporte – Marat Safin de bad boy no tênis a bom moço de Putin

Eu já havia comentado via Twitter algumas vezes que planejava fazer um post aqui sobre o Marat Safin, mas eu pensava em falar de tênis e das maluquices que ele cometia em quadra, que tanto fazia alegria de muitos fãs do esporte (inclusive desta que vos fala).

Entretanto, a atividade parlamentar de Safin tem me chamado a atenção. Então, resolvi estudar, pesquisar e entender como um ex-atleta exerce suas atividades no parlamento russo e se lá é como aqui (veja o post sobre Romário no Brasil).

Rússia e Brasil possuem muitas coisas em comum, são países de dimensões continentais, de regionalidades peculiares, com as mais jovens áreas conservadas de petróleo do mundo, com um processo metalúrgico muito intrínseco, economias primárias baseadas na importação de commodities (agrícolas e minerais no caso do Brasil e basicamente minerais no caso da Rússia), além de serem economias  emergentes formadoras dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).  Posso dizer que as semelhanças param por aí, já que as demais, não são de destaque.

Você deve estar pensando, mas porque toda essa informação sobre “Rússia e Brasil” para falar de Marat Safin, o gato, o muso, o bad boy?

Calma. Sem contexto não há como compreender o que se desconhece.

 O sistema político adotado na Rússia é diferente do Brasil. Aqui somos uma república federativa de sistema presidencialista…

E o que isso quer dizer? Quer dizer que aqui o “Presidente” (me recuso a escrever presidenta, ops…) é a figura centralizadora, mas ela não decreta ou governa sozinha. Os poderes (legislativo e executivo) são independentes  e cruciais para o andamento do país. Aqui, o poder Judiciário também é independente.

…A Rússia, por sua vez, é da república de sistema semi-presidencialista. Ou seja, lá a figura do Primeiro Ministro e do Presidente, onde ambos controlam o poder legislativo, do qual Safin faz parte. O legislativo  russo é dividido em duas partes a Soviete e a Duma. Vou me concentrar nesta segunda, que é onde Marat trabalha atualmente.

Duma (Государственная Дума): É a chamada câmara baixa (tipo as dos deputados daqui), é composta por 450 deputados – dentre eles o ex-líder do ranking da ATP, uma coelhinha d Playboy russa (e atriz) Maria Kozhevnikova, o ex-boxeador Nikolai Valuyev e a primeira mulher a ir ao espaço Valentina Tereshkova. Lá também os partidos apostam em astros para ‘popularizar’ a casa, pelo menos na última eleição. 

Charge do jornal The Moscow Times de 2011

Charge do jornal The Moscow Times de 2011

“As pessoas querem votar em celebridades e não para os políticos – este é um fenômeno global,” disse Sergei Markov, ex-líder do Rússia Unida ao The Moscow Times, da ocasião da eleição de Safin e outros.  (Arnold Schwarzenegger e Tiririca estão aí para não desmenti-lo… a pensar).

Marat Safin é deputado pela região de  Nizhny Novgorod e faz parte do partido político do atual presidente, Vladimir Putin, o Rússia Unida, que tem como ideologia o conservadorismo.

Isso mesmo. O ex-bad boy, pegador e destruidor de raquetes em escala industrial da ATP é filiado ao partido CONSERVADOR russo.

INSANO!

Pode parar para respirar um pouco, reler a frase acima e prosseguir…. afinal, como diz o outro: “Não faz sentido” (ou faz. Não sei muito o que dizer, já que nos tempos de rebeldia tudo podia, menos com a DinaraSafina, irmã dele).

Bom, acho que eu não preciso explicar muito sobre “conservadorismo”, quanto mais o russo. E mesmo que você não saiba muito bem o que quer dizer isso no sentido de “Rússia”, afinal você só lembra deles ao falar de União Soviética, tênis feminino e ginástica artística, medite o seguinte: “o líder do conservadorismo russo é Vladimir Putin” (hastag sem mais).

Que fique claro não sou contra ou a favor do conservadorismo e você, que me lê, pode encará-lo como quiser. Certo, Marat?

Voltando as atividades políticas do muso-russo: Safin é Vice Presidente do Comitê da Duma de Estado sobre as associações públicas e organizações religiosas.

(Agora você entende a quantidade de fotos que ele posta em festas populares e religiosas via Twitter, né?)

Pois é, com isto eu sinto informar que Marat Safin é um dos defensores da polêmica lei Anti-Gay. Votou a favor da lei e ainda falou aos demais colegas sobre seu texto.  Sim, um dos maiores chiliquentos do circuito masculino profissional do tênis nos últimos 30 anos, não quer ver gays passeando de mãos dadas. 

Sobre a lei (rapidamente): Foi proposta e escrita por Vladimir Putin, o presidente russo, e enviado primeiro à Duma e depois a Soviete. Defende, de acordo com seus defensores (leia-se Marat Safin e amigos), a liberdade das crianças russas. Segundo o ministro dos esportes da Rússia, Vitaly Mutko, a lei é “um problema inventado, um exagero da mídia ocidental”, já que ela proíbe manifestações e paradas do orgulho gay pelo país, mas não proíbe as pessoas de terem relações “não-tradicionais” dentro de quatro paredes.

(hastag facepalm é o mínimo para definir meu sentimento ao saber disso)

Parênteses: Polêmica em partes, GRANDE parte dos russos aplaude o texto e muito se dá em relação aos valores religiosos firmados na sociedade russa, que tem a Igreja Ortodoxa Russa, como religião “oficial” com 41% da população e  mais os quase 3% de outras linhas Ortodoxas, onde as mais populares são a Ucraniana, Georgiana e a Apostólica Armênia.  E mais o Islã com 7% da população, além de 5% somando todos os tipos de Neopaganismo, onde a maioria segue a linha eslava. Cristãos católicos e protestantes, são minoria ao lado dos judeus e hindus, juntos são 4%.

Foto: Tasha Medveva - Estudos Políticos de Moscou

Foto: Tasha Medveva – Estudos Políticos de Moscou

Com barba, às vezes, por fazer e gravata JAMAIS alinhada, Safin é tido como um político de linguagem moderna entre os 238 companheiros de partido e casa (Duma), alguém que fala aos jovens e a população simples, por ser um ídolo do país.

A vida política de Marat começou logo após sua retirada em 2009, no Masters de Paris na derrota para Juan Martín Del Potro. O campeão do Australian Open 2005 (odeio esse resultado, pronto falei!) e do US Open (2000), voltou à Rússia para assumir um cargo na diretoria da federação russa de tênis,  na sequência foi eleito vice-presidente da federação, onde lutou pela finalização do complexo tenístico de Kazan e pela melhoria das estruturas do esporte em outras regiões do país. Na mesma época foi assessor do presidente do Comitê Olímpico da Rússia

A imprensa russa e também a edição 1593 de 26 de janeiro deste ano da revista francesa L’equipe, afirmam que Safin é uma espécie e articulador do seu partido. Gosta de discutir as propostas e pedidos enviados pela população e é dedicado aos jovens e às mulheres. Obviamente, seus públicos alvo.

Como bom político, Marat evita a imprensa para falar de apenas um assunto e a L’equipe Mag afirmou ter se “encontrado” nas atividades na Duma. Formado em Direito e em Gestão, o muso que tem descendência tártara trabalha (com os demais 237 colegas de partido) para que as “vontades” e propostas do presidente Putin.

Mas não pense você que eles estão lá só para aprovar absurdos e interesses próprios – como se fala muito da política russa, que é dominada por empresários. Safin encabeçou uma campanha para que a lei de liberdade de expressão religiosa fosse aprovada no inicio do ano. Pode parecer besteira, mas agora cultos, missas, reuniões e festas poderão acontecer sem a necessidade de aviso prévio as autoridades locais. (Isso aí, antes de organizar uma missa, por exemplo, um padre precisava pedir autorização as autoridades).

Clicando aqui você pode ver o perfil do Marat no site oficial da Duma. (Aviso aos navegantes: está em russo)

Como tem muitos seguidores estrangeiros no Twitter, Marat tem postado apenas em russo e assuntos ligados a feriados e festividades locais.

É isso que o Safin tem feito….

Matei a curiosidade vossas, então fui.

Ariane Ferreira

bagdhatis

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