Casemiro de problema à solução

Carlos Henrique Casemiro,  ou o popular ‘Casemarra’ para a torcida tricolor parece ter encontrado a redenção que tanto buscava. O menino de 21 anos deixou de ser problema no São Paulo Futebol Clube, o maior clube da América Latina (em termos de história, para muitos), para ser solução no maior clube do mundo, o Real Madrid Club de Fútbol.

Eu sei, parece irônico, mas essa é a grande verdade e algo que podia ser simplesmente encarado como a tal “maturidade” que se conquista no futebol europeu, se tornou motivo de crítica ferrenha e muita discussão graças a péssima fase do São Paulo no futebol brasileiro.

Casemiro é prata da casa, cria de Cotia e devia ter sido “melhor trabalhado” pelo clube do Morumbi dizem muitos dos analistas de futebol. Não que eu discorde completamente deles, mas sabendo, como muitos deles sabem e melhor do que eu, como era a convivência do volante no tricolor em seus últimos instantes, acho certa precipitação por parte destas pessoas.

Eu me lembro quando saiu a informação de que o Casemiro podia estar indo para um clube espanhol, foi dito na imprensa brasileira que o negócio seria ótimo para o garoto amadurecer e quem sabe retomar o futebol jogado algumas vezes com o clube paulista e na seleção brasileira no mundial sub-20.

A poeira da informação baixou, mas o Casemiro já estava em Madri, capital da Espanha, sendo assistido pelos membros das equipes de base do clube merengue. Conversando com a imprensa espanhola soube que Casemiro foi uma sugestão do então manager do clube, o português José Mourinho, mas o setorista do clube Diego Torres, afirmou após a sua contratação por empréstimo que o garoto chamava a atenção dos dirigentes do clube desde o sul-americano sub 17 em 2009, onde ele nem foi titular absoluto.

Diego comentou na Radio Estadio de Madri, na ocasião da contratação, que Casemiro não foi ao Real antes porque o clube brasileiro tinha no garoto a esperança de ter um novo ídolo, que desde muito jovem vinha sendo protegido nas grades de Cotia. O volante era esperança de ser a estrela do time e uma grande venda, já que uma das grandes vocações do São Paulo é produzir e vender – nem sempre da melhor forma.

Deu muito certo para o São Paulo no começo. O garoto subiu em 2010 e fez um brilhante campeonato mundial sub 20 com a seleção no ano seguinte. Agregou valor ao seu nome e aumentou o preço do seu futebol e aí vieram os problemas.

Casemiro - Mundial Sub 20

Casemiro – Mundial Sub 20

Casemiro virou Casemarra, literalmente. Muito jovem, se deslumbrou, se desentendeu com pessoas dentro do clube e foi cobrado, muito cobrado. Publicamente por dirigentes e pela torcida.

É lógico que ele vacilou, foi encontrado em restaurantes americanos em véspera de concentração chutando o balde (comendo demasiado), brigou com torcedores na rua, nas redes sociais e se descontrolou.

Casemiro foi tão protegido que esqueceram de prepará-lo para o mundo do futebol. Ele chegou a vir a si, tentou mudar, se controlar, pediu ajuda, mas fora do clube também foi mal assessorado. Buscou a redenção, chorou, pediu mais uma chance e…

… Foi parar em Madri, em uma negociação elogiada pela imprensa brasileira. Não tentem se enganar, os mesmos que hoje criticam o São Paulo por ‘não cuidar do garoto’, aplaudiram o empréstimo e a venda com frases: “Rapaz, e o Casemiro vai jogar no Real Madri B. Quem diria?” e “O Juvenal sabe mesmo vender jogadores”.

É isso, puxe pela memória, Casemiro foi colocado no mesmo saco de Fernandinho e Marlos – bons negócios que tiraram o peso do elenco.

Não deixa de ser verdade, mas faz destas críticas, as de hoje, de uma hipocrisia sem tamanho.

Para a imprensa espanhola – tiramos aí o Diego Torres e alguns pouquíssimos jornalistas influentes no clube -, Casemiro era uma aposta que podia dar errado no Real Madri de Castilla (o time B) ou certo. Não era um investimento alto, na verdade era empréstimo. O que virasse, seria lucro.

Conversando com colegas do Jornal AS, soube que Casemiro chegou ao clube merengue com pouca confiança, com medo mesmo, desejo de se redimir e reerguer a carreira. A dedicação do brasileiro chegou aos ouvidos de Mourinho, que assistiu o garoto e solicitou a promoção dele ao time A, mantendo-o no time B. Ao que parece, não se sabe ao certo, Mourinho não quis correr o mesmo risco do São Paulo e a atitude manteria os pés do garoto no chão.

Deu certo, pelo menos até agora. Carlo Ancelotti confia no futebol do menino e a imprensa espanhola está bem animada com os dois gols em dois jogos dele, nesta pré-temporada.

Ao AS uma declaração do atleta me chamou a atenção. Ela foi dada após o amistoso com a  Internacionale de Milão. “Quero seguir lutando pela titularidade, é meu objetivo, aproveitar os minutos nos amistosos,  Ancelotti me disse que está contente comigo.É experiente, sempre me ajuda e me diz “obrigado por teu trabalho”. Estou muito contente pelo gol, mas o principal é a equipe”.

Essa declaração define tudo o que não aconteceu com ele em seus últimos tempos de São Paulo. Vamos observar os treinadores mais experientes. Emerson Leão não é o tipo de treinador que pega jogador no colo, mesmo assim tentou com Casemiro. Paulo César Carpegiani é do tipo que gosta de ensinar e Casemiro estava na fase do “eu sou o cara”, lógico que não deu certo.

Além disso, Casemiro viu a ascensão do colega de base, Lucas Moura, viu seu status mudar e com ele nada acontecia. A frustração breca, ela emperra qualquer pessoa. Bate na autoestima, machuca mesmo.

Psicologicamente falando, o volante estava abalado, precisava de colo, precisava de um elogio, de um “muito obrigado” de esperanças reais de que o posto poderia ser seu e não promessas.

Definitivamente, o que faltou no São Paulo, do que se sabe dos dois clubes, sobrou em Madri e a tendência é que tudo melhore para o natural de São José dos Campos. Casemiro pode vir a ser o titular da posição de segundo volante em breve (Sami Khedira – abre o olho), mas segue como mais um. Ele jamais poderá ‘falar grosso’ e ‘bater o pé’ em campo, enquanto o primeiro volante do time for Xabi Alonso, por exemplo. Vai precisar jogar muito e por muito tempo para ser no Real o que era no tricolor, mas aí já terá amadurecido (torço pra isso!).

Carlos Henrique tem dois gols em dois jogos na temporada, uma média muito superior aos tempos de São Paulo que era de um gol a cada 12 jogos.

Observando os cenários e sabendo o pouco que acontece e aconteceu não tenho medo de dizer que se continuasse no tricolor paulista Casemiro seria um grande mico de Cotia. Não o será mais,

É isso!

Ariane Ferreira

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