Meligeni – 10 anos sem sua raça

Hoje, como muita gente já sabe, completa-se 10 anos da retirada do Fernando Meligeni do tênis profissional. A despedida foi em grande estilo, com o ouro do Pan Americano de Santo Domingo, na República Dominicana, mas falamos disso depois.

Toda vez que vai se falar de um ex-atleta profissional se fala dos números, dos grandes feitos e eu fiquei pensando: “Claro que eu preciso falar dos números e feitos do Fininho, mas ele nunca foi só isso”.

Nunca foi mesmo.

Meligeni foi para muitos da minha idade a primeira referência de tênis para o Brasil e mesmo assim ele era o “argentino naturalizado brasileiro”. Eu tinha, sei lá, uns sete anos, nunca entendi porque ser “naturalizado” me parecia uma coisa ruim.

Aliás, acho de uma babaquice sem tamanho esse troço de “odiar” e disfarçar de “rivalidade” Brasil e Argentina. Nunca entendi porque “ganhar da Argentina é melhor”. E sabe o que é pior? Não é recíproco, aqui odeia-se os de lá de graça. 

pan-americano-meligeni

Voltando ao Fernando, eu gosto muito dele pelo que jogou de tênis (dentro das suas margens), pelo que ele tenta fazer pelo esporte (em geral), pela a postura dele como um cara da comunicação e pela forma (aparentemente) positiva como ele encara tudo. eu acompanho o trabalho dele (blog, rádio, tv), sempre tem algo bacana para quem gosta do esporte e eu aprendo muito sempre.

Acho que pelo sangue argentino (pode me ofender), Fernando é pra mim sinônimo de raça.

Muita, muita raça mesmo. Olha esse ponto contra o Felix Mantilla em Roland Garros (1999).

Já tive a honra de entrevistar o Fernando umas três ou quatro vezes. Ano passado, tive uma conversa bem longa com ele (leia aqui), onde aprendi horrores. (MUITO OBRIGADA, FINO!)

É com esse tipo de personagem que percebo que nós, jornalistas, não podemos deixar desaparecer. Eles têm sempre que ser ouvidos pelo que sabem e principalmente pela “coragem” de dar a cara a tapa e dizer o que pensam num país tão hipócrita quanto o nosso.

Ainda bem que ele está na TV e ao lado do cara certo: Paulo Calçade.

Aliás, mesmo sendo bem respeitado e considerado no meio do tênis brasileiro, ainda não vi as mesmas reações de admiração, gratidão e respeito que tenistas e ex-tenistas estrangeiros têm pelo Fininho.

Essa semana conversei com três treinadores (dois argentinos e um chileno) que gratuitamente falaram de Meligeni de como ele também podia ser usado como exemplo para seus pupilos, etc e etc.

Juan Mónaco é um ex-top 10 que comentou comigo: “roubaram ele da gente” numa conversa rápida (não era entrevista) no Brasil Open deste ano. Juan Carlos Ferrero foi outro que falou com admiração do Fino: “lembro de Roland Garros contra o Corretja. Que foi aquilo?” (Respondi: “uma aulinha básica” e nós rimos). Sem contar Carlos Moyá e Nicolas Lapentti que eu não soube se falavam como amigos ou fãs (risos). Mas uma reação que me impressionou foi a do Guido Pella, eu estava o entrevistando ano passado e os olhos dele brilhavam (vocês têm que ler pra entender). Foi muito legal de ver.

Vamos ao números e feitos: O melhor ranking da sua carreira foi 25º do ranking em 11 de outubro de 1999. Na oportunidade, o top 10 era (na sequência 1-10) Andre Agassi, Yevgeny Kafelnikov, Pete Sampras, Todd Martin, Guga Kuerten, Marcelo Ríos, Greg Rusedski, Richard Krajicek,Tim Henman e Alex Corretja.

(edit) Grandes vitórias: Meligeni coleciona vitórias emblemáticas na carreira. Venceu, pelo menos uma vez, os seguintes ex-números um do mundo (em sua época): Pete Sampras (Roma, Itália, 1999), Carlos Moyá (Long Island, EUA, 1999), Yevgeny Kafelnikov (Praga, Rep. Tcheca e Gstaad, Suíça, em 1998), Patrick Rafter (com esse o head a head é de 2×1 para o Fininho – vitórias em Pinehurst, EUA,1996, e Roland Garros 1999) e Marcelo Ríos (Pan Americano 2003).

Ele tem três títulos de simples na carreira e sete em duplas.

Fernando também perdeu três finais.

A primeira final perdida foi em 1995 para ninguém mais, ninguém menos que o austríaco Thomas Muster, que virou número um do mundo no ano seguinte a essa final e tem 44 títulos na carreira.

“Socorro!!!” Foi o que eu pensei – não lembro do jogo

O torneio era o “México City”, hoje Acapulco (mudou de cidade). O caminho do Fino até a final  foi assim:  estreou contra o colombiano Mario Rincon, venceu o alemão Marc Goellner, o britânico Mark Petchey, então algoz do principal favorito (o espanhol Alberto Berasategui) e atropelou Alex Corretja, da Espanha, com 6/1 6/0 na semi. Vendeu o título bem caro 7/6 (4) 7/5 para Muster que era na época 19º do ranking. Fernando era 86º.

Em 2001 foi a vez do Brasil Open para o tcheco Jan Vacek. Foi a primeira edição do torneio e a chave do Meligeni foi até tranquila, estreou contra o brasileiro Francisco Costa, como cabeça de chave cinco, passou com dificuldades pelo argentino Federico Browne, na sequência, superou o paraguaio Ramon Delgado e o argentino Agustin Calleri para vender caro o título 2/6 7/6 (2) 6/4.

A última final ATP de sua carreira, foi em Acapulco em 2002 quando Fininho perdeu do espanhol Carlos Moyá, que já tinha sido número um do mundo (03/1999), campeão em Roland Garros (1998) e era 32º. Já o brasileiro era 71º naquela semana, e superou o Juan Inacio Chela, da Argentina, na semi, o espanhol David Sanchez nas quartas, Nicolas Coutelot da França, nas oitavas e o norte-americano Vicent Spadea na primeira rodada.

Prefiro  falar dos revezes e depois citar as glórias.

Não que eu ache vice-campeonato um fracasso, tanto que estampei as campanhas aí. 

O primeiro título do Fininho foi em 1995, ano de sua primeira final perdida. Foi no tradicional torneio sueco de Bastad, onde ele superou o norueguês Cristian Ruud. Na campanha o Fernando bateu o Carlos Costa (sim o agente do Rafael Nadal) na semifinal, o local e muito bom tenista Magnus Norman, que na época tinha furado o quali, mas que em 2000 foi número 2 do mundo e perdeu a final de Roland Garros para o Guga. Além do espanhol Oscar Martinez e o austríaco Gilbert Schaller na estreia.

Você tá pensando que o Meligeni é pouca coisa? Ele ganhou final do Mats Wilander.

ISSO MESMO!

serena vamos

Fernando foi para a final do ATP de Pinehurst, nos Estados Unidos, e estava tão confiante que nem ligou de ser o 76º do ranking da ATP contra o 35º jogou agressivo, arriscou paralelas, deixadas e aplicou essa cruzada na linha, que arrancou aplausos do tricampeão de Roland Garros, dono de sete títulos do Grand Slam.

Aliás, observe a maestria da passada que deu título ao Fino.

Em 1998 ele venceu o russo Yevgeny Kafelnikov na final do ATP de Praga. (não me lembro deste torneio e não achei  informações confiáveis) Só sei que o rival era o sexto do mundo, naquela semana.

Há quase um mês eu relembrei ouro do Meligeni e sua despedida em um post sobre a retirada do chileno Marcelo Ríos (clique aqui e veja). Eu sempre digo que foi um dos jogos de tênis mais loucos da minha vida.  E acho que foi onde mais pode se ver o quanto o Meligeni é raçudo e positivo.

Até falei pra uma ex-colega de escola que virou professora de tênis: ‘Quer que eu baixe o jogo da web e junte as partes  pra você usar como instrução?’ – Renata e eu estamos trabalhando nisso; =) 

Mas é sempre bom lembrar que o Fino foi quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996. Perdeu o bronze para o Leander (righlander) Paes, que venceu a primeira medalha olímpica da Índia. Ouro ficou para Agassi e a prata para o espanhol Sergi Bruguera.

Além disso, o Meligeni fez Roland Garros brilhantemente em 1999. Jogou bem a semana inteira.

1º RD. Ele pegou o americano Justin Gimelstob, 70º e jogo sem televisão lógico.

2ªRD. A vitima foi o marroquino Younes El Aynaoui, 33 do mundo

3ª RD. Foi contra o terceiro colocado, o australiano Patrick Rafter – 6/4 6/2 3/6 6/3 (WOW!)

Nas oitavas de final foi a batalha campal contra  espanhol Felix Mantilla, então 15º.  6/1 5/7 7/ 7/6 (1)

Nas quartas a “aulinha básica” para Alex Corretja, então seis da ATP, 6/2 6/2 6/0. (A cara o Alex no inicio do vídeo diz TUDO)

Na semifinal tinha o tosco do Andrei Medvedev, 100º, que tirou o Guga do torneio, nas quartas, o Fino por 7/5 3/6 6/4 7/6 (6) e levou uma sacolada do Agassi na final.

Fernando Meligeni é um dos gigantes do esporte no Brasil. Então relembrar sua carreira é a maior e melhor maneira de reverenciá-lo e incentivar os demais.

Ainda acho que o esporte brasileiro tem que incutir a cultura esportiva na vida do país e não o contrário.

Já se passou uma década, o Meligeni já escreveu livro, ajudou a dar vida ao Gael e a Alice (que está por vir) e deve ter plantado alguma árvore (feijão no algodão não conta!). Para muitos a vida aí já teria passado, mas ele insiste em trabalhar pelo esporte, que agradece (e devia o aplaudir mais vezes).

Matei um pouco das saudades, relembrei de muitas coisas pra escrever o post e desta vez não vou pedir desculpas por ser longo. =p (sinto falta de emoticon aqui às vezes).

Fui!

Ariane Ferreira

Ps: Eu amo/sou gif com Gastón Gaudio

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