(2) Política e Esporte – Aparentemente atrasados, Chile e suas estrelas dão exemplo

O fim da semana passada e o inicio desta foi agitado para quem cobre tênis na América Latina. Tudo graças a um chilique público dado pelo grande ex-tenista Fernando Gonzalez reclamando de mais um adiamento da votação da chamada “lei do esporte” de seu país, o Chile.

Todo mundo deu, novamente, voz ao vice-campeão do Australian Open 2007, mas a maioria se ateve ao fator de que a tal lei protestada por Gonzalez constituía na criação de um “ministério dos esportes” no país vizinho.

Por motivos profissionais (e pessoais, prioritariamente) decidi compreender melhor essa história.

Conversei com atletas chilenos, aproveitei que dois deles estão no Brasil, os meninos Bastian Malla e Christian Garin, tenistas, 16 e 17 anos respectivamente, para sentir como eles se sentiam em relação a tudo isso. Tanto os garotos quanto o Martin Rodriguez, treinador de Garin, são próximos a Gonzalez maior partidário desta lei, que já está aprovada.

O que eu senti?

Esperança.Por parte dos atletas com quem pesquisei o assunto e com os colegas jornalistas com os quais falei. Além das manifestações de vários atletas –de diferentes modalidades – em redes sociais e entrevistas.

Mas do que se trata a lei e porque os considero exemplo? Você deve estar se perguntando.

A lei cria um ministério, pasta totalmente dedicada ao esporte, que trabalhará programas de incentivo a prática esportiva, a ações sociais e educacionais, além da redação de legislações para incentivo do esporte.

OK! Aí você se pergunta: E a gente não tem isso aqui?

Na teoria…

O que é diferente não é a proposta, nisso o Chile está mais que atrasado. A diferença é a verticalização para a injeção de recursos por parte do governo e parcerias público privadas. Observe o desenho hierárquico feito pelo jornal El Mercurio.

Organograma do novo ministério

Organograma do novo ministério

Não fala espanhol? Eu explico:

A pasta terá um ministro indicado pela presidência, segundo a lei tem que necessariamente ser uma pessoa ligada ao esporte, e esta pessoa terá que repassar os recursos para 14 secretários regionais, que obrigatoriamente têm que equiparar por modalidade (federações), clubes e projetos os investimentos locais.

A linha é direta. Sem intermediários, como explicou o subsecretário dos esportes Gabriel Ruiz-Tagle em entrevista ao jornal El Mercúrio de ontem: “Quando os órgãos públicos têm mais hierarquia, se melhora a gestão. Sm dúvida, o fato de os esportes serem igualitários a outros ministérios permitirá uma melhor gestão dos recursos, cujos frutos serão vistos no futuro”.

O atual modelo chileno é parecido com o brasileiro, sem a pasta ministerial. Lá há o Instituto Nacional dos Esportes (IND) que recebe o dinheiro da Secretaria Geral do Governo (a Casa Civil deles), analisa e repassa como bem entende os recursos públicos.

O problema é que o IND é composto por concursados, gestores e tem uma estrutura muito inflada, aí o dinheiro vai, mas não chega às quadras, campos, pistas ou piscina s. Principalmente, de acordo com os atletas, porque as pessoas do IND, por mais bem intencionadas que sejam, em sua grande maioria nunca viveram o esporte.

Aí entra o GRANDE diferencial do Chile para o nosso modelo. Quando esta lei foi proposta, no governo de Michele Bachelet, a presidente escreveu ao Senado chileno argumentando que tinha dúvidas sobre o uso político da pasta e pediu que a casa redigisse a lei de maneira a evitar este processo.

Apesar da resistência (pensa que lá é tão diferente?), o plenário cedeu, principalmente após ouvir um discurso acalorado de Fernando Gonzalez no Senado.

Feña foi o primeiro medalhista de ouro olímpico na história do país (ao lado de Nicolas Massú em Atenas 2004) e único tenista da história a ter uma medalha de cada (ouro nas duplas e bronze em simples em Atenas, além da prata em simples em Pequim 2008). Aliás, foi dele o ponto do ouro. Veja!

Portanto, agora quem vai definir e direcionar os recursos do esporte serão basicamente pessoas totalmente dedicadas ao esporte, seja ele de alto rendimento ou não. Apesar da manutenção do IND, as definições para aplicar os recursos saem dos âmbitos municipal, Comitê Olímpico, Forças Armadas e Universidades e passam a ser centralizadas no âmbito federal – SEM INTERMEDIÁRIOS.

Os recursos enviados à pasta serão parte do orçamento da união, como no Brasil, definido anualmente.  A diferença é que o esporte ganhará status semelhante a saúde e educação, com programas interligados a essas duas pastas.

Cecília Perez, ministra da Secretaria Geral disse ao El Mercurio: “O esporte terá calças largas, não será nunca mais um parente pobre das políticas públicas, porque terá institucionalidade, autonomia, recursos e independência que merece”.

O grande objetivo do Chile é receber bem os próximos eventos esportivos que sediará, os “Jogos Sul-americanos” em 2014, com todas as modalidades olímpicas e a participação dos 14 países da América do Sul (isso inclui o Brasil) e a Copa América 2017. Além de criar seu próprio legado.

Antes que eu me esqueça: A redação da lei determina que as federações de TODOS os esportes, ABSOLUTAMENTE TODOS, recebam recursos iguais dos planos de investimentos e proporcionais aos números de praticantes para manutenção de equipamentos já existentes. A ideia é que os ginásios sigam poliesportivos e servindo as escolas locais

Tá, e a gente vai copiar o Chile?

Talvez!

O que eu sei é que lá eles ouviram os grandes atletas do país. Deram espaço para a discussão. As casas legislativas ouviram pessoas vencedoras no esporte como os ex-tenistas Nicolas Massú (ouro olímpico em duplas e simples – Atenas 2004), Gonzalez e Marcelo Ríos (ex-número um do mundo)  e pessoas que pouco venceram, no âmbito mundial, como a atiradora Claudia Vera e o levantador de peso Cristián Escalante.

Enquanto isso, na República Federativa do Brasil atletas de representação mundial como Ana Beatriz Moser, Magic Paula e Raí criam uma ONG e imploram para serem recebidos pela presidente.

Na minha modesta opinião, a Dilma não vacila só nisso. Aldo Rebelo, por melhor intencionado que seja, é um afronte grotesco como Ministro dos Esportes.

Não. Eu não quero a volta do Pelé.


Eu sei, ficou grande, me desculpem.

Ariane Ferreira

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