O futebol ensina: ‘ainda dá’

Depois de fazer a publicação sobre a frustração do time da Espanha ao não passar no teste contra a seleção brasileira, algumas pessoas me perguntaram se eu achava que a vitória da seleção canarinho deu-se em virtude de uma tirada de pé da “Fúria”. Daí decidi fazer este post.

Esse é o tipo de pergunta que mais me ofende, sinceramente. Não consigo, inclusive como ex-atleta que sou, imaginar que um atleta profissional entre em campo, quadra, raia, pista, tablado, tatame , etc pensando: “ah, hoje vou deixar meu rival me superar, afinal já ganhei tudo”. Simplesmente não consigo. Então, eu parei para pensar, refletir e principalmente ouvir sobre a vitória do Brasil.

A que conclusão cheguei? Nenhuma. Olhando para o grupo de 23 jogadores somado a comissão técnica e a grande delegação da CBF não achei resposta. Ouvi colega falar que a comissão era gorda (R$ 100 mil por jogador  em caso de título); gente falar que jogador correu para provar seu valor individual; ouvi teorias (válidas inclusive) sobre o fato de metade dos jogadores brasileiros estarem em meio de temporada e por consequência fisicamente melhores que os rivais; a bendita história do ‘grupo fechado’, da ‘família Scolari’; sobre as manifestações país afora (essa teoria inclusive merecia uma monografia para se candidatar ao Nobel). Um monte mesmo, mas nenhuma delas me convenceu.

Aí, fazendo minha leitura matinal da imprensa espanhola observei uma matéria sobre enquetes no site do Marca com o título: “O Hino do Brasil na final do Maracanã, o melhor momento da Copa das Confederações“, na qual um vídeo como o abaixo era o abre:

Que momento!

Decidi ler o texto para entender.

O espanhóis votaram pelo site do jornal para escolher o momento que para eles foi o mais importante, o melhor, o mais bonito. Boas opções não faltaram: “Os gols de Neymar”; “Os pênaltis contra a Itália”; “As revoltas sociais no Rio (amplamente cobertas por este jornal)”; “A festa (alegria) do goleiro do Taiti” e “A caneta dada por Iniesta no jogo contra a Nigéria (jogada linda)”…

Nada foi páreo para o coro de mais de 60 mil vozes em um dos tempos do futebol. Para 28% dos votantes esse foi o momento mais emocionante. Pra mim também foi – e olha que eu ainda estou pensando no Maracanã gritando “Pirlo, Pirlo, Pirlo”, ali foi outro momento uníssono do estádio no torneio, não teve outro.

Foi aí que, antes de ler a asneira que falou Diego Armando (mito) Maradona, pensei: “Foi ali que o Brasil venceu o jogo”. Na verdade, assim que o hino acabou, a primeira parte dele, no jogo eu virei para o lado e disse: “Rapaz! Se o Brasil não ganhar hoje, não ganha nunca mais” e arranquei risos das pessoas.  Até porque tive uma reação nervosa, de gestos ansiosos e isso nada tem a ver comigo em um jogo de futebol. Respirei um minuto e tuitei:

Tweet histórico

Tweet histórico

Que vergonha deste tweet, completamente descompensado (e com palavrão). 

Relembrando tudo isso para responder sobre o “pé mole da Fúria”, lembrei de uma frase do Capita – Carlos Alberto Torres, capitão da seleção brasileira da Copa do Mundo do México 1970. “O futebol não é o ópio do povo. Não aparta a fome. A alegria do gol não apaga a tristeza da realidade. O futebol é a união e o modo do brasileiro dizer que tem jeito, que ainda dá”.

Capita disse essa frase em 27 de setembro de 2009, ele estava respondendo a uma jornalista (me fugiu o nome dela) do Estado de São Paulo que estava presente em uma festa organizada para reunir os campeões mundias pelo Brasil. Uma festa da associação deles no Museu do Futebol. Ao lado dele estavam os goleiros Gilmar Rinaldi e Zetti (campeões em 1994), Paulo César Caju e Dadá Maravilha (campeões capitaneados por ele) e o mestre Zito (Campeão em 1962) que concordaram.

Então, não posso ter a ousadia de dizer que a Espanha tirou o pé ou ficou com ‘medinho’ do hino. Isso seria muito leviano.

Entretanto não consigo dar razão a Maradona e simplesmente concordar que o fator: “casa” venceu o jogo, até porque eu assisti cada segundo desta partida, já Diego Armando eu não sei.

A seleção de Luiz Felipe Scolari não ganhou por conta de um hino, mas talvez aquele clima lindo do Maracanã (e o feio do entorno, que gritava e apanhava por um país melhor) era um subconsciente comum pra gente dizer pra si enquanto nação “que ainda dá”.

É seguir na lutar… seja ela qual for

Ariane Ferreira

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