O futebol moleque do Taiti

A redescoberta do gol.

A redescoberta do gol.

A primeira fase da Copa das Confederações já acabou e deixou aquele sentimento de “podia durar mais um pouco”. Não pelo grande futebol apresentado, já as grandes seleções estão cansadas, exauridas fisicamente, e mesmo Brasil e Uruguai, que têm jogadores em meio de temporada, sentem o cansaço bater à porta.

O “gostinho de quero mais” ficou por toda aura implementada pelo evento. Não estou falando das manifestações e do clima de nacionalismo que tomou os estádios me lembrando muito os momentos descritos no documentário ‘Anos de Chumbo’ do Lucio (mestre) de Castro.

Estou falando da forma como este torneio fez o Brasil, a pátria de chuteiras, redescobrir o valor de um “Gol”.

Tenho alguns anos de futebol – como fã do esporte e também trabalhando em diversas frentes deste esporte – e confesso: quando fiquei sabendo da vinda do Taiti soltei alguma piada, da qual não me recordo, mas me rendi a história, já que como amante de histórias, não seria eu quem a ignoraria sendo contada diante dos meus olhos.

Daí vieram as informações de uma seleção semi-profissional, que jogava por amor ao esporte e que alcançou a vaga por jogar contra o vento – seleções tão ruins e estatisticamente piores que eles mesmos. (Sinceramente, me lembrei da seleção de Rugby do Brasil alguns anos atrás).

Traduzindo: o Taiti nada tinha a acrescentar ao torneio, além talvez de trazer um pouco da cultura desta ilha com 45 quilômetros de extensão e população de pouco mais de 170 mil pessoas, graças ao fato de ser a maior ilha da Polinésia Francesa, às pautas dos jornais.

Ledo engano!!!

É claro que o Brasil aprendeu com o Taiti, mas aprendeu mais que passos de uma dança local qualquer ou palavras que mixam francês e algum idioma aborígene para falar ‘bola’, ‘gandula’ ou ‘escanteio’.

Culturalmente falando, aprendemos que um colar de conchas pequenas é dado a todo visitante que eles querem que seja bem vindo a seu país, já desejando seu retorno. O colar também serve como convite, então: nigerianos, espanhóis e uruguaios já sabem onde procurar um café na Oceania.

O Taiti não veio ao Brasil ensinar sobre seu futebol, o que eu vi em três jogos, 24 gols sofridos e um a favor, foi o Taiti ensinar de futebol ao Brasil.

Quase com a inocência de crianças, esses homens do Taiti, trabalhadores comuns e desconhecidos como o Zé que trabalhou no processo de fundação da Fonte Nova, o Pedro que foi eletricistas no Mané Garrincha ou o Fernando da equipe de projeção do Mineirão, chegaram ao Brasil encantados pela magia da bola e as trouxe à tona.

Enquanto alguns colegas insistiam em traçar um paralelo entre o Taiti e o Ibis, o time chegou, treinou e se focou para fazer história.

O Taiti não é a pior seleção do mundo. Se fosse, aqui não estaria, já que as vagas são para os melhores de cada continente, ou eu estou errada?

Mesmo assim, o time taitiano me lembrou os tempos em que eu trabalhava organizando torneios corporativos (lá no Rivellino Sport Center), nos quais, os atletas de final de semana defendiam as cores de seus ‘departamentos’ em um show de correria, tropeços, passes errados, bolas furadas e gols perdidos de forma insana.

O Taiti é como caolho em terra de cego e aproveitou a única fresta de luz que enxergou para ter Jonathan Tehau, um entregador de pizza de 25 anos, como seu principal herói. Principal, porque o Taiti trouxe 23 deles ao Brasil.

Aqui, cada sorriso humilde, olhar admirado, bola tomada, passe certo ou gol evitado foi digno de um efusivo aplauso.

No país do futebol – onde o torcedor foi afastado dos estádios por medo da violência; o tic-taca espanhol irrita pela “falta de objetividade”; o esporte, sinônimo de Brasil, virou sinônimo de sujeira – o Taiti mostrou porque o GOL é o ápice:

Emocionando o mais indiferente dos espectadores.

Cada derrota foi celebrada como uma vitória, pois foi mesmo, pelo menos para eles. Os adversários respeitaram, Espanha e Uruguai não celebraram seus gols efusivamente. Com exceção de Abel Hernandez e como diz Muricy Ramalho ‘a bola pune’, o uruguaio tentou três gols de letra, a bola não quis entrar. Bem feito! =P

Faltou ao uruguaio a humildade e a alegria taitiana. Vai ver que é também por isto ele amarga a reserva em sua seleção. #prontofalei

Bom, fico com o choro de Mikael Roche abraçado ao espanhol David Villa, que ao fim dos 10/0 para Espanha, foi buscar o professor de inglês e goleiro debaixo das traves. As lágrimas de missão cumprida e segundo ele de amor por ver um “templo do futebol” ovacionando seu time.

Valeu Maracanã! =)

No mundo do futebol financeiro, com jogadores recebendo 30 milhões de euros por ano em salários, clubes faturando mais de 150 milhões de euros somente em lucro e jogadores valendo 100 milhões de reais. “A alegria do gol é única, só quem já balançou uma rede e viu um estádio sabe seu valor”, como certa vez me disse o craque mito Roberto Rivellino.

O agradecimento não é do Taiti e sim dos amantes do futebol. Obrigada Taiti!

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